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Crescer não é fácil. PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Diário do Nuno
Escrito por Nuno Frazão   
Sábado, 09 Março 2013 15:55

As coisas mudam à nossa volta, ou somos nós que mudamos?

Na difícil tarefa de crescer, processo intemporal que não se confina ao percurso da infância até à idade adulta, a pergunta terá sempre uma resposta fácil num Mundo que, não sendo a preto e branco, nos responderá num dos seus inúmeros tons de cinzento: “As duas coisas”.

 

Se partirmos das palavras do poeta - “Os meus olhos são uns olhos; e é com esses olhos uns; que eu vejo (…), onde outros com outros olhos; não veem (…)nenhuns.” – talvez a coisa fique um pouco mais clara, pois indiciam que o que existe à nossa volta pode até nem ser aquilo que nos parece em determinada altura.

Estava eu no meu ano de estágio como professor na Escola Secundária Pedro Nunes e, iniciando um vicio que ainda mantenho de andar o mais possível no pátio para tentar compreender melhor os alunos, passeava com o meu velhinho walkman Sport (aquele antigo leitor de cassetes portátil amarelo, para o qual juntei muitas mesadas, alguns dinheirinhos de aniversários e umas quantas lavagens do carro dos meus pais), fazendo passar o tempo entre duas aulas que tinha para dar.

Passou um dos meus alunos de 10º ano, também ele a ouvir música no seu walkman, e meti conversa: “Olha lá. Que estás a ouvir?”, respondendo-me prontamente: “O stor não gosta disto”. Não me fiquei: “Não gosto porquê?”. E ele também não demorou muito: “O stor gosta é de fado e de opera”.

(fiz uma pequena pausa)

“Deixa-me ouvir.” Passou-me os auscultadores para a mão. Coloquei-os e, em poucos acordes, disse-lhe o nome da banda: “Ah, são os…”. Arregalou os olhos de espanto como se tivesse presenciado um fenómeno completamente inesperado: “Conhece?...”. “Claro. São aqueles do videoclip… (e lá descrevi um pouco da cena do videoclip)”. Juntou a boca aberta aos olhos arregalados num misto de espanto e desconfiança.

(abro aqui um parêntesis apenas para referir que, a dita banda e música, que na realidade nem me lembro já quem eram, era assim o top do momento, pelo que nem sequer estava numa exibição de cultura musical)

Dando sequência ao momento, passei eu ao “ataque”. Agora era eu que queria compreender um pouco mais sobre tudo aquilo que estava ali a acontecer e, após a minha interrogação face a tanto espanto (ainda para mais porque o aluno nem me conhecia de lado nenhum e como tal nada sabia dos meus gostos musicais), fiquei a saber o motivo, simples e… óbvio: “ Os adultos gostam é de fado e opera.”.

Ora aqui estava a chave do episódio. Se há uns meses atrás, ainda na faculdade como aluno, estaria bem no papel de jovem em qualquer contexto escolar, com direito a uma atualidade cultural condizente com a condição, a partir do momento em que me apresentei no papel de professor, em cenário escolar eu pertencia agora indiscutivelmente ao mundo dos adultos com direito a distanciamento da geração que me seguia. Passava agora para o lado do fado, opera e , provavelmente, noticiário das 20h como programa de eleição na TV.

Sábias palavras as do Professor Rómulo de Carvalho, na pele de Poeta António Gedeão, que têm a resposta para a incerteza daquilo que de facto nos rodeia e que deixam á liberdade da nossa interpretação o desenho da realidade de cada um.

Como me lembro daquela rua estreita onde vivemos em Londres algures em 1977, que lá ao fundo, num fundo distante, tinha um jardim, amplo e cuidado, que quando a revisitei já com vinte e tal anos pela mão de uma prova de esgrima, não era mais do que uma pequena rua com meia dúzia de casas e uma praceta mínima, de jardim bem cuidado é certo (caso se possa chamar jardim a um banco, dois arbustos e uma pequena árvore), mas que nada se parecia com a rua que a minha memória me mostrava.

Então… Então talvez as coisas não mudem tanto à nossa volta, como nós gostamos tanto de nos lamentar (embora mudem um bocadinho claro), mas sejamos nós as grandes metamorfoses deste percurso.

Mas crescer não é fácil… E sempre que crescemos algum bocadinho, não podemos voltar a repetir esse passo. Porque o próximo, mesmo parecendo igual, nunca o será, pelo simples facto de não ter tido inicio no mesmo ponto de partida.

Uma vez pensei como seria engraçado, com o  grupo de esgrimistas mais novos com que trabalho, voltar a repetir o caminho que fiz com o Pedro e o Káká (os dois resistentes de um trabalho iniciado em 96/97). Mas logo entendi que este pensamento estava enganado. O novo grupo (quem sabe para um percurso também de cerca de 15/20 anos), virá dos 7/8 anos até aos vinte e tais, tal como o Pedro e o Káká mas, com estes dois eu vim dos vinte e tais para os 40, enquanto com o novo grupo o meu crescimento faz-se dos 40 para os cinquenta e tal.

Mas crescer não é fácil… Porque sempre quisemos crescer desde pequenos, mas gostávamos de o fazer apenas em algumas partes, preservando o que de melhor tinha ser “pequenino”. Mas não dá. Crescer é um pacote completo que se adquire como um todo.

Mas crescer não é fácil… Porque tem que ser feito por cada um de nós, com decisões, com escolhas, com alegrias e tristezas e, aqui, será sempre mais fácil enfrentar o desconforto das transformações culpando tudo o que “muda” à nossa volta. (Será que muda?)

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